sábado, 31 de julho de 2010

O PIANO




Ando perambulando pela casa
Os fantasmas sorriem pra mim
São a minha companhia...
O cheiro de mofo
Se faz presente invadindo tudo.
Nada restou...
Só o piano...
Sobre o piano retratos emudecidos...
Tudo se calou...
Não se ouvem mais
Os risos alegres pela casa
Outrora, repleta de felicidade.
Os acordes sonoros do piano
Emudeceram...
E a minha voz
Num pranto sufocado
Emudeceu também.
E o piano mudo,
Numa prece surda
Pede para se libertar.

Marcia Thelma

Um domingo de tarde sozinha em casa,dobrei-me em dois para a frente-como em dores de parto- e vi que a menina em mim estava morrendo.Nunca esqueci esse domingo.Para cicatrizar levou dias.E eis-me aqui.Dura,silenciosa e heróica.Sem a menina dentro de mim.

( Clarice Lispector)





O ENCANTADOR DE SERPENTES

em Estrela (disponível no blog Palavras de Absinto)

Eu já sonhava com a textura do teu toque,
quando o palco ainda era tua morada.
Eu já imaginava o calor de tuas mãos,
desde a primeira vez
que te vi acariciar a pele das congas,
ordenando tuas vontades em gestos,
e elas, alucinadas, te obedecendo em ritmos.

Eu recriei em ondas cerebrais o teu grito rouco e forte,
quando meus ouvidos só conheciam
as primeiras nuances de tua voz cantarolando em falsete,
dando ritmo as mulheres que te adornavam o solo.

E já sabia que um dia tu descerias do tablado,
e buscar-me-ia com os olhos em meio ao público.
E quando me achasses, sorririas,
e com calma entrarias em minha vida,
como se há muito ela já fosse tua.

De antemão, eu sabia que me olharias nos olhos,
e me afagarias as mãos.
E que me dirias coisas profanas ao ouvido.
Segredos nossos, do que ainda teríamos a sobreviver,
mas que eu já colecionava e, por isso, não me assustavam.

Disso tudo eu sabia,
porque antes do fim do show de tua vida,
antes de desceres do palco
eu já havia pedido licença ao meu sagrado
e tratara de exercer minha arte, o meu ofício,
para restituir-lhe o feitiço em gênero e em número,
mas em grau mais intenso.

Para ter-te meu, como me tinhas,
Tive que te fazer cativo do meu enredo.
Teci-lhe uma longa e emaranhada história,
cheia de nós e pontos reversos,
na qual eu trançara, cuidadosa e antecipadamente,
o roteiro que eu queria que tivesse a nossa sobrevida.

Pedi licença ao teu profano
e estreei no teu palco a minha fábula,
cheia de heróis, príncipes,
capas, espadas e dragões vencidos.
Nela, não haveria piedade para os maus.
Também não haveria donzelas,
até para que não houvesse necessidade de dublês
e com isso inchasse o orçamento
– já que dinheiro é sempre problema nos relacionamentos.

No palco, só eu e você.
E o final era de múltipla escolha,
qualquer deles, venturoso.
É que tínhamos nos pulsos
como garantia de vida, a marca dos afortunados.
O sinal profundo, feito a ferro e fogo
pouco depois do nascimento,
e que nos identificaria quando, enfim, nos defrontássemos.
Por ele, perdíamos o medo,
pois sabíamos que juntos,
separados pela vida ou por outros amores.
Em qualquer dos finais, seríamos “felizes para sempre”.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

LAVANDO A ALMA

( foto de Kelly Baeta)

Lava criança que há esperança pro mundo
Aprenda que muitos ainda precisam assim fazer
Lava, pois o tempo de agora deixa marcas claras
Deixa escorrer na água o sorriso que a saudade roubara
Lava a roupa agora criança
Para depois não ter que lavar a cara
Lava com água do rio e segue o seu curso
Termine o escolar e o colegial
Faz o segundo grau e até uma faculdade
Mas lave a roupa agora
Seja leve e como passarinha até voe
Voe em bolinhas de sabão
Pois muitas meninas iguais a ti
Já lavaram roupas também
E outras até lavaram mais
Lavaram vidas e almas
Assim minha linda menina
Antes de concretizar nossa morte
Para nosso olhar
Lave e leve as tuas lembranças
Se assim quiser
Pois as minhas hão de ficar
Como adorno ao vazio que deixastes

Postado por Jurandir Bozo (Fábio Sirino) às
4:36
PM

ESPERANDO VOCÊ






A campainha toca

corro para a porta

e volto tão triste.

por que?

Por que, hem?

Você não vem

Você não chega

Eu não lhe abraço

lhe beijo e lhe afago

por que?

A campainha novamente toca

Ansiosa corro para a porta

e rio contente...

Agradeço sorridente

volto para o quarto
abraço-o saudosa

beijo suas mãos

ouço suas palavras

e leio sua carta.

Marcia Thelma

PESADELO


Eu fiquei pensando
e o meu pensamento
trouxe você para mim


*

Procurei na noite
procurei de dia
e você estava
dentro de mim.


*

Adormeci pensando
você sempre presente...
Acordei chorando;
em meus sonhos
você estava ausente.

Marcia Telma

DESILUSÃO





É o fim.
d'uma estória de amor
de um homem...uma mulher
uma estrela...um rio,
uma árvore....e uma canoa.
*

Os dois se amaram
como só se pode amar
somente uma vez.
Amaram a árvore
batida pelo vento.
*
Amaram a canoa afundada
banhada pelas águas;
a estrela que os iluminava
quando na noite, de luz
só havia a dos olhos dela.

*
depois...a partida...
o adeus...uma saudade...
uma lembrança amável
das ternas carícias.
*
Hoje...
O fim da estória.
O que é bom logo passa.
Ele partiu,ela não resistiu
a saudade, a dor, a distancia.
E o que restou?

*
A árvore morreu
A canoa afundou
a estrela não mais brilhou
e os olhos dela se turvaram.
Foi o fim...
O eterno fim dos namorados.

Marcia Thelma