domingo, 25 de julho de 2010

ALUCINAÇÂO



Fitas vermelhas,
azuis,amarelas,
verdes, rosas,
brancas e pretas
passam velozmente.

*
Girandôlas em espirais
dançam um bailado
e mostram
um olho aflito.
*
Triângulos equiláteros,
cubos,esferas,
cones e cilindros
brilhantes
passam voando.
Deixando
estranhas formas:
uma orelha,um nariz.
*
Pessoas voam sem rosto
e há braços mutilados
no espaço.
Uma cara se agiganta
cresce,cresce,cresce
e se apodera do vídeo.
*
Ondas de fumaça
labaredas incandescentes
sinfonia
atormentadas de cores
devora o chão
e sobe pelo ar.
*

Flores e mais flores,
rosas de todas as cores
aros de metal,listas
coloridas de flúor
se confundem.
Velocidade supersônica.
*
Sorvetes,bombons, caramelos
unem-se,atraem-se
formando uma boca
de lábios magoados de sangue.


*
Ossos humanos
jazem na lama.
Pés de barro
quebrados.
*
Risos...Gritos...Prantos...
Luta...Guerra...paz...
Amor...
Lama...muita lama
com gosto de sorvete
no fantasma inexistente
de uma noite de alucinação.
Marcia Telma







"O meu mundo não é como o dos outros,quero demais.exigo demais.há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa: sou antes uma exaltada,com uma alma intensa,violenta,atormentada,um alma que não se sente bem onde está , que tem saudades; sei lá de quê!"

Florbela Espanca

terça-feira, 20 de julho de 2010

CLARICE, A ESTRELA




ESCREVO POR NÃO TER NADA A FAZER NO MUNDO:


SOBREI E NÃO HÁ LUGAR PARA MIM NA TERRA DOS HOMENS.

CLARICE LISPECTOR





O rosto de Lispector está em selos e o seu nome adorna condomínios de luxo. Incontáveis livros foram escritos sobre ela, e dezenas de apresentações teatrais foram baseadas em sua obra.

Podem-se comprar os livros em máquinas no metrô... (em Nova York)...
O mito de Clarice se agiganta tanto quanto o que ela escreveu. Seu nome incomum fez com que soasse como uma espiã. Os olhos e ossos do rosto elevados levaram as pessoas a compará-la a uma loba ou uma pantera. Para o tradutor Gregory Rabassa, Lispector “parecia com Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf”...
Alguns pensavam que era um homem escrevendo sob um pseudônimo. O interesse pelo oculto (ela teve um hábito duradouro de consultar astrólogos e cartomantes) levaram as pessoas a se referir a ela como “a grande bruxa da literatura brasileira”. Também era chamada de monstro sagrado. Mais tarde queimou a mão direita em um incêndio no seu apartamento, e o membro ficou parecido com uma garra negra.
A escrita de Lispector era fora do comum como ela. Seus romances e contos carecem de tramas identificáveis, e são relatados em linguagem impressionista. Têm uma qualidade assombrada e interior que vai na contramão da literatura brasileira contemporânea.
O primeiro romance, “Perto do coração selvagem”, foi lançado em 1943 e se tornou uma sensação da crítica. Um crítico o chamou de “maior romance que uma mulher escreveu na língua portuguesa”. O estilo de fluxo de consciência do romance levou os críticos a cotejar Clarice com Joyce e Woolf, escritores que ela ainda estava por ler...
Para Lispector, estar longe do Brasil era um tipo de morte. O papel de esposa de diplomata nunca foi fácil para ela; considerava isso um tipo de domesticação forçada. Suas cartas são cheias de queixas ácidas. “Essa Suíça é um cemitério de sensações”, escreveu. “As pessoas também são silenciosas e riem pouco. Sou a única que ri”. Em Washington se rebelou ao decorar a árvore de natal com ornamentos estranhos em preto, marrom e cinza...
Com a aparência esvaindo-se, Lispector se tornou cada vez mais reclusa e exigente. Viciada em cigarro e pílulas para dormir, ela exibia comportamento errático e às vezes soberbo. Ligava para amigos no meio da noite e abandonava jantares por razões menores. Tinha uma reputação de ser mentirosa. Sobre ter amizade com ela, disse uma mulher, “Ninguém pode aguentar muito tempo”...
Moser, por vezes, também vai um pouco além. Ele escreve que a obra de Lispector é “talvez a maior autobiografia espiritual do século 20”. Ele aponta que ela teve “uma das carreiras mais extraordinárias da literatura do século 20”. Chama o romance “A paixão segundo G.H.” de “um dos maiores romances do século 20” e, algumas páginas depois, “entre os maiores romances do século”.

Clarice nasce sob o signo da vagueza, e também sob o da culpa. Sua mãe doente acrediatava que ficaria curada dando à luz... O fracasso pesa muito sobre os ombros de Clarice: "fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram eu ter nascido em vão. Mas eu, não me perdôo".
Queria ter curado a mãe ao nascer, milagre que lhe teria permitido afastar de si a vergonha do fracasso e o espectro da solidão, a "de não pertencer" nem a seu pai, nem a sua mãe. O peso da falta persiste. Seu primeiro trabalho na Faculdade de Direito, onde estuda de 1940 a 1943, intitula-se: "Observações sobre os fundamentos do direito de punir".
A irredimível e vasta culpa torna-se às vezes "fisicamente constrangedora"; "é um punho fechando o peito", uma "cruz pesada, de que não se pode falar". Certas pessoas "têm vergonha de viver: são os tímidos", aos quais se identifica. "Desculpem, por exemplo, estar tomando lugar no espaço. Desculpem eu ser eu". Sussurra por meio da escrita: "Sou erro puro". Murmura: "Morro de medo de comparecer diante de um Juiz". Declara: "Sou inocente"...
No dia seguinte à morte de Clarice, a Folha de São Paulo dá destaque à seguinte informação: Teve uma infância pobre e sua mãe, com o parto, ficou paralítica...

"Ai, coitadinha de mim. Tão sem mãe. É dever ter mãe. É coisa da natureza"...

A mãe é a filha, é a barata, é o pus, é a jóia, e Clarice não cessa de reviver dolorosamente seu nascimento. Entre seus últimos fragmentos manuscritos: "A paralisia pode transformar uma pessoa em coisa? Não, não pode, porque essa coisa pensa. Estou precisando urgentemente de nascer. Está me doendo muito. Mas eu não saio dessa, sufoco. Quero gritar. Quero gritar para o mundo: Nasci!!!"] Línguas de Fogo, Claire Varin, Limiar, 2002. Tradução Lúcia Peixoto Cherem

"Deus, me ensine somente a odiar".

"Eu te odeio"disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la.

"Eu te odeio" disse muito apressada.

"Eu te amo" disse ela então com ódio para o homem cujo grande crime impunível era o de não quere-la.

"Eu te odeio",disse implorando amor...

( Clarice Lispector )

I N D E C I S Ã O



Nem sei como estou,

nem como estamos

ficamos...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Maceió,vista do mirante

À Marcia Telma

Jangadas ao luar... Lindos corais
Brotam d’água do mar com esplendor,
Arrecifes... Piscinas naturais
Nuances de matiz multicolor...
*
Na orla branca, salpicos de cristais...
Arrebentam as ondas com fervor...
Ao murmúrio do vento os coqueirais
Parecem entoar cantos de amor.
*
Pássaros cantam, beleza em toda volta.
O fascínio que a Mundaú denota...
Encantos de magia deslumbrante.
*
Ao longe, à deriva, um barco á vela.

“ Maceió nunca me pareceu tão bela,
Contemplada do alto do Mirante...”