quarta-feira, 28 de julho de 2010

VENDE-SE UMA CASA...




Vende-se uma casa
branquinha
com um pequeno jardim.
onde a grama é verdinha
e as flores são formosas...


*
É uma casa linda!
cor dos sonhos
de um jovem casal.
As trepadeiras florescem
cercando um banquinho.


*
É uma casa pequena...
há o escritório dele,
uma sala, o nosso quarto,
um quarto amplo para as crianças,
a sala de jantar,uma cozinha espaçosa
e um enorme quintal.

*
Eis a casa.vende-se todinha.
Com as cortinas nas janelas
os móveis,da sala,do escritório
do nosso quarto,do quarto das crianças
da sala de jantar e da linda cozinha.
*
Nós a construímos aos poucos,
parede à parede,o assoalho, o teto
pintamos com a cor do nosso amor.
Arranjamos o jardim:rosas vermelhas
trepadeiras sobre o banquinho.

*

A sala de visitas com cortinas,
aqueles móveis lindos da mamãe
O nosso quarto tão sereno e tão bonito.
A cama,um tapete para seus chinelos,
um guarda-roupa e um toucador.


*

E o quarto das crianças?
( teremos várias).
Um bercinho de vime,
com uma colcha de retalhos
feita pela vovó.

*
Na cozinha,ampla e espaçosa
a louça da família
achava-se guardada.
( e eu,pobre louca pensava
o quanto seria bom cozinhar para eles).


*
Agora, vendo-a...
Meu coração está dilacerado
pela dor.A dor da minha renúncia...
É uma casa feita de sonhos,
mas que estão sepultados nestas paredes.

*
Não quero esta casa...
pois não ouvirei nunca sua voz
chamando-me meu bem.
Não ouvirei o choro lindo
do meu filhinho que não nasceu...

*
Vende-se esta casa
Uma casa branca feita em sonhos,
o preço mais elevado da minha renúncia
feito do amor guardado
morto antes de nascer...
Vende-se uma casa...
Quem a quer comprar?

Marcia Thelma






terça-feira, 27 de julho de 2010

Ternura amiga


São tantas as estradas


para percorrer,


são tantas dúvidas


sobre qual seguir.

O medo insiste


em se fazer presente


mostrando desacertos,


erros e tristezas.


Se eu chorar um dia


( eu sempre choro,sabe?)


Não partilhe do meu pranto


Não se limite a minha dor.


Ah! Se você soubesse

no quanto me faz bem


sua presença amiga


silenciosa e confortante,


talvez compreendesse


os meus temores noturnos.


Se me abraçasse com carinho


bem devagarzinho,


com certeza compreenderia


que a emoção de tê-lo num abraço


num laço passivo,sem juras falsas,


nem promessas loucas.

Faz de mim, mulher amada


companheira, amiga,


sempre desejada.


E faz você em mim


aquele que sonhei.


E por que não dizer


por quem me apaixonei?


Marcia Thelma
























Vende-se tudo...


Martha Medeiros


No mural do colégio da minha filha
encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o
que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos.

O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe,
ao meu lado, comentou:
- Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
- Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.

Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo
apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e
por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar,
aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.

Como eu não conhecia muita
gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e
esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o
primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém
que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante.


Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além
disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se
iam meus móveis e minhas bugigangas. Um troço maluco: estranhos entravam na
minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu, mais sem alma.

No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No
último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou
esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros.

Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que
aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei
a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por
coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.


Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que torna-se cada vez
mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa
o tempo que estiveram presentes na minha vida... Desejo para essa mulher que
está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que
tive na minha última noite no Chile. Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha
2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio.
Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que
não tínhamos nem uma xícara em casa.

Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções
todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos
excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza.


... só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir, é
melhor refletir e começar a trabalhar o DESAPEGO JÁ !
Martha Medeiros






Estou colocando esse artigo porque muito me identifico com o que Martha Medeiros escreve.A sua simplicidade me toca.E eu também estou vendendo tudo...Até os sonhos

Marcia Thelma





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Cartas de amor







Kahlil Gibran (1883-1931), nascido no Líbano, será lembrado por seu clássico "O profeta," que sessenta anos depois de sua publicação, continua na lista dos mais vendidos de diversos países. Em 1995, li sua correspondência amorosa com Mary Haskell, uma americana dez anos mais velha que ele. Ali encontrei um homem complexo e fascinante - o que me incentivou a selecionar alguns textos para a publicação (Cartas de amor do profeta, Ediouro, fora de circulação infelizmente). - Paulo Coelho.

Aqui vão alguns fragmentos:

10/3/1912
Mary, minha adorada Mary, como você pode achar que me está dando mais sofrimento que alegrias? Ninguém sabe direito qual é a fronteira entre a dor e o prazer: muitas vezes eu penso que é impossível separá-los. Você me dá tanta alegria que chega a doer, e você me causa tanta dor que eu chego a sorrir.

8/7/1914
Sempre pensei que, quando alguém nos entende, termina por nos escravizar - já que aceitamos qualquer coisa para sermos compreendidos. No entanto, sua compreensão trouxe-me a paz e a liberdade mais profunda que já experimentei. Nas duas horas de sua visita, você descobriu um ponto negro no meu coração, tocou-o, e ele desapareceu para sempre -fazendo com que eu enxergasse minha própria luz.

18/4/1915
Os dois dias em que estivemos juntos foram magníficos. Quando falamos sobre o passado, sempre tornamos mais real o presente e o futuro. Por muitos anos, tive pavor de olhar aquilo que vivi, e sofri em silêncio. Hoje entendi que o silêncio nos faz sofrer mais profundamente. Mas você me faz conversar, e eu descubro as coisas empoeiradas que se escondiam na minha alma, e então posso arrancá-las dali.

17/7/1915
Nós dois estamos procurando tocar os limites da nossa existência. Os grandes poetas do passado sempre se entregavam à Vida. Eles não procuravam uma coisa determinada, nem tentavam desvendar segredos: simplesmente permitiam que suas almas fossem arrebatadas pelas emoções. As pessoas estão sempre buscando segurança, e às vezes conseguem: mas a segurança é um fim em si, e a Vida não tem fim. Poetas não são aqueles que escrevem poesia, mas todos os que têm o coração cheio do espírito sagrado do Amor.

10/5/1916
Querida Mary: estou enviando uma parábola que terminei. Tenho escrito pouco, e apenas em árabe. Mas gostaria de ouvir suas correções e sugestões sobre este trecho: Na sombra de um templo, meu amigo me apontou um cego. Meu amigo disse: "Este homem é um sábio". Aproximamos, e perguntei: "desde quando o senhor é cego?" "Desde que nasci". "Eu sou um astrônomo", comentei. "Eu também", o cego respondeu. E, colocando a mão em seu peito, disse: "Passo a vida observando os muitos sóis e estrelas que se movem dentro de mim".

domingo, 25 de julho de 2010

ALUCINAÇÂO



Fitas vermelhas,
azuis,amarelas,
verdes, rosas,
brancas e pretas
passam velozmente.

*
Girandôlas em espirais
dançam um bailado
e mostram
um olho aflito.
*
Triângulos equiláteros,
cubos,esferas,
cones e cilindros
brilhantes
passam voando.
Deixando
estranhas formas:
uma orelha,um nariz.
*
Pessoas voam sem rosto
e há braços mutilados
no espaço.
Uma cara se agiganta
cresce,cresce,cresce
e se apodera do vídeo.
*
Ondas de fumaça
labaredas incandescentes
sinfonia
atormentadas de cores
devora o chão
e sobe pelo ar.
*

Flores e mais flores,
rosas de todas as cores
aros de metal,listas
coloridas de flúor
se confundem.
Velocidade supersônica.
*
Sorvetes,bombons, caramelos
unem-se,atraem-se
formando uma boca
de lábios magoados de sangue.


*
Ossos humanos
jazem na lama.
Pés de barro
quebrados.
*
Risos...Gritos...Prantos...
Luta...Guerra...paz...
Amor...
Lama...muita lama
com gosto de sorvete
no fantasma inexistente
de uma noite de alucinação.
Marcia Telma







"O meu mundo não é como o dos outros,quero demais.exigo demais.há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa: sou antes uma exaltada,com uma alma intensa,violenta,atormentada,um alma que não se sente bem onde está , que tem saudades; sei lá de quê!"

Florbela Espanca

terça-feira, 20 de julho de 2010

CLARICE, A ESTRELA




ESCREVO POR NÃO TER NADA A FAZER NO MUNDO:


SOBREI E NÃO HÁ LUGAR PARA MIM NA TERRA DOS HOMENS.