segunda-feira, 17 de março de 2008

HISTÓRIA DE UM RIO



Eu nasci um filete d’água

nas montanhas esplendorosas

das Minas Gerais.

Deram-me o nome do santo

padroeiro da natureza e dos animais,

e por São Francisco fiquei.

*

Desafiando a gravidade

subi o Brasil rumo ao nordeste

região pobre do meu país.

Passei por locais desconhecidos

altas pedreiras, corredeiras profundas

sofri o impacto de desabar

dos rochedos em cascatas,

formando um cenário

de rara beleza...

*

Eu vi coisas de assombrar...

e coisas que gosto de relembrar...

os índios Urumaris nas noites de luar

me viam como um espelho de prata

para Jaci ( lua ) admirar.

*

Assim nasceu Jaciobá

cantado e decantado pelos poetas,

que os portugueses denominaram

de Pão de Açúcar ,

cidade branca dos mil amores.

*

Com tristeza eu vi e pranteei

a luta dos Xokós

expulsando os Urumaris.

Lampião e Maria Bonita vinham

em minhas águas se banhar.

*

E os casais de namorados

que rolavam nas noites escuras

em minhas areias ardentes do sol ?

meninos eu vi tanta coisa

que dá tristeza lembrar.

*

Havia os grandes navios

O Peixoto e o Peixotinho

e o famoso Moxotó

que naufragou lá na ilha.

Havia as canoas de tolda

que deslizavam a vagar.

Havia os barcos de pesca

com seus pescadores a remar.

*

De repente o progresso

veio comigo implicar.

Surgiram as fábricas, as represas,

e captaram minhas águas,

para as terras irrigar.

*

Os esgotos e a sujeira

vieram em mim desaguar

e os meus peixes, que horror!

começaram a sofrer

dos camarões nem lhes falo

pois não puderam viver.

*

Hoje vivo de memórias

de um passado rico e nobre

pois nem a lua Jaci

vem em mim se mirar.

E os amantes, coitados

em meio à poluição

procuraram outro lugar.

*

Esta é a triste história

de um rio que se chamou

São Francisco

e hoje é conhecido

apenas como velho Chico.

*

E você que está aí

o que se propõe a fazer

que se perderam no mar.

para salvar este irmão

que sofre e chora cansado

o pranto de suas águas

**

Marcia Telma

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